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Copa não deve determinar eleição presidencial

Torcida brasileira se empolgou com a Copa, mas o torneio deve ficar em segundo plano nas eleições (foto: EPA)

Torcida brasileira se empolgou com a Copa, mas o torneio deve ficar em segundo plano nas eleições (foto: EPA)

 

Historicamente, eventos esportivos não tiveram impacto em pleitos

Apesar da preocupação dos partidos com os efeitos que a Copa do Mundo de 2014 e a derrota da seleção brasileira possam ter nas eleições presidenciais de outubro, historicamente esses torneios pouco influenciaram os eleitores no âmbito nacional, de acordo com levantamento realizado pela ANSA.

De 2001 para cá, foram organizadas 11 edições dos três principais megaeventos esportivos do planeta (Copa, Olimpíadas de Verão e de Inverno), e essa será apenas a terceira vez em que uma delas coincide com uma votação para presidente ou primeiro-ministro no mesmo ano.

Em dezembro de 2002, cerca de cinco meses após o fim da Copa do Mundo, Roh Moo-hyun, que pertencia ao partido da situação, foi eleito presidente da Coreia do Sul (que sediara o torneio junto com o Japão), com uma estreita margem de 570 mil votos. Por outro lado, em abril de 2006, pouco depois do encerramento dos Jogos de Inverno de Turim, o então premier da Itália, Silvio Berlusconi, foi derrotado nas eleições gerais pelo oposicionista Romano Prodi, também por uma diferença pequena.

Mas há um ponto em comum entre os dois casos. Embora Moo-hyun tenha vencido em meio a um certo clima de otimismo por conta do Mundial, em ambos os pleitos os megaeventos ficaram à margem do debate. E a tendência é que isso também aconteça no Brasil.

“Desde 1994, temos eleições junto com a Copa. E a história nos mostra que há uma desconexão total entre as duas coisas. O que temos de novo neste ano é que o Mundial foi no Brasil. O governo conseguiu ‘ganhar’, ficou uma imagem positiva do país, mas tudo isso tende a ser marginal no processo sucessório. Outras questões devem ser mais candentes”, explica o cientista político André Pereira César, da CAC Consultoria.

No entanto, até por conta do saldo favorável que o torneio deixou, mesmo com todos os problemas de atrasos, obras inacabadas e custos elevados, se alguém usar a Copa para ganhar alguns votos, é mais provável que seja o governo. Tentando a reeleição, a presidente Dilma Rousseff e o PT tendem a apontar o evento como uma grande realização sua, sem se furtar a criticar o pessimismo espalhado pela oposição nos meses anteriores a ele.

“À oposição não interessa muito discutir a Copa. Talvez interesse ao governo, porque muita gente diz que foi a Copa das Copas. Mesmo com o maior vexame do futebol nacional, o governo sai relativamente ileso. Influência esse tema terá. Agora, ter influência é uma coisa, ser decisivo é outra”, acrescenta Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.

Até por esse assunto não ter um caráter determinante, o provável é que a campanha da presidente também não exagere ao usá-lo. “O governo sabe que há um limite. Se pegar uma carona muito forçada nisso, o eleitor pode perceber”, ressalta César.

Entretanto, uma pesquisa do Datafolha realizada após o fim do torneio aponta que, apesar da boa imagem que o país passou, a relação dos brasileiros com o evento ainda é mais negativa do que positiva. Segundo a sondagem, 54% dos entrevistados disseram que a Copa traz mais prejuízos do que benefícios, enquanto 36% afirmaram exatamente o contrário. Mas, antes de o Brasil ser goleado pela Alemanha, esses números eram de 46% e 45%, respectivamente.

Visão local

Apesar de megaeventos não determinarem eleições nacionais, eles podem influenciar na escolha de políticos regionais, como governadores. De acordo com o levantamento feito pela ANSA, os eventos esportivos conseguem mexer com o ânimo de populações locais. Foi o que aconteceu em Turim em 2006, quando o então prefeito Sergio Chiamparino se reelegeu com folga após os Jogos de Inverno daquele ano.

Com uma administração marcada pela realização das Olimpíadas e das obras relacionadas a ela, como o metrô da cidade, ele alcançou grande popularidade, recebendo 66,6% dos votos. Contudo, essa foi a única ocasião neste século em que um dos três maiores megaeventos esportivos ocorreu pouco antes de uma eleição municipal.

No Brasil, a Copa também mexeu com os ânimos locais, e em algumas cidades-sede, a mudança de percepção em relação ao campeonato foi marcante. De acordo com a cientista política Aylla Kipper, que vive em Cuiabá, boa parte da população do município estava desmotivada com o torneio, principalmente por conta das obras inacabadas, que causavam um enorme trânsito na capital mato-grossense.

Contudo, com a aproximação do evento, algumas vias começaram a ser liberadas, intervenções foram concluídas com urgência e o tráfego fluiu. E aquilo que parecia ser uma catástrofe iminente não aconteceu. Além disso, houve uma sintonia muito grande entre os moradores do município e turistas, deixando uma sensação positiva pós-Mundial.

Mas isso não significa que a situação irá obter algum tipo de vantagem no Mato Grosso. “Eu diria que não vai influenciar. Nosso governador [Silval Barbosa] não vai buscar a reeleição. Ele está apoiando o candidato do PT [Lúdio Cabral], mas não acredito que possa transferir votos por causa da Copa. Quando ele fez as obras, comprou inimizades com o interior, que tem problemas de infraestrutura precária e educação”, completa Kipper. (ANSA)

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